Uma das grandes preocupações que se tem quanto se é moleque é a de não servir de sparing para o valentão do bairro. Sim, porque todo bairro que se preze, tem que ter ao menos um valentão. O cara é, via de regra, mais forte e ignorante do que a maioria dos outros moleques, implantando uma rotina de terror e apreensão na redondeza.
Falo bairro, porque venho do interior, e lá as turmas se dividiam por bairros. Hoje em dia, há os edifícios, condomínios e etc. Mas a regra do valentão continua valendo. Sempre há um. Não tem jeito.
Lá em Presidente Juscelino, sub-distrito de Mesquita, Baixada Fluminense, RJ, havia vários. Sim, fomos sortudos, havia vários. O Zé Capeta, os irmãos Mildon e Baiano, Giovane e Valtencir, Renan e Meio-Quilo. Voce pode estar pensando: -como um valentão pode se chamar Meio-Quilo!?!? Sim, caro e paciente leitor dessas mal traçadas linhas, o Meio-Quilo era o pior deles. Naquela época, a violência não era tão escancarada e covarde como é hoje em dia, mas existia. Havia traficantes e chefes de quadrilha. O Meio-Quilo era franzino, desnutrido e doente, não aguentava um tapa. Porém se dizia bem relacionado com os comandantes da área. Ninguém tinha coragem de por à prova a afirmação, e assim o filé de borboleta azucrinava a molecada, enterrando a cabeça de uns em montes de areia, tomando pipas e bolas de gude de outros e por aí vai. Morreu alvejado na esquina da padaria do Vavá.
O Zé Capeta era o mais divertido dos valentões. Não judiava de todos indiscriminadamente, e eu sou prova disso. O cara gostava de mim e me respeitava. Na verdade ele se divertia batendo em quem gostava de bater nos menores. Era o valentão que aterrorizava os valentões. O pai era da reserva da Marinha, dando a ele um padrão de vida acima da maioria. Andava pelo bairro em uma bike toda mexida e de vez em quando pagava pão com mortadela e Coca-Cola para toda a molecada. Entrou para a Marinha e sossegou o facho.
Os irmãos Mildon e Baiano eram dois caras muito fortes. Se a gente desse mole com pipa, bola de gude…hum… já era. Tomavam mesmo e considerávamos sorte se ainda não sobrassem uns cascudos. A última notícia deles que tive era que trabalhavam como borracheiros em Mesquita.
O Renan tocava violão e jogava bola bem. Com ele nunca tive problemas. Tocávamos na esquina do bar do “seu” Alberto e mandávamos bem nas peladas no campinho. Mas vi o cara dando muita porrada em “Zé Arruela” que deu mole. Dava até pena. Entrou para os fuzileiros. Nunca mais tive notícias.
Os irmãos Giovane e Valtencir eram diferentes. Enquanto o Giovane só batia em quem merecia, o Valtencir arrepiava quando dava vontade. Mudaram de bairro e nunca mais tive notícia.
Agora, depois de mais de trinta anos, percebo que aprendi com eles. Aprendi a sobreviver sem ser subserviente, aprendi a enfrentar as adversidades com criatividade, sem prejuízo à honra. Pude notar que, conhecendo e entendendo os motivos que fazem as pessoas agirem do modo que agem, dando a entender que não queremos competir e sim compartilhar, podemos conviver em paz.
Meu filho passa por uma situação dessas aqui no prédio. Volta e meia chega revoltado, dizendo que o fulano fez isso, que fez aquilo. Digo a ele para agir com inteligência, para se afastar quando necessário e não demonstrar medo e sim indiferença. E aguardar, porque todo valentão, mais cedo ou mais tarde, encontra seu Zé Capeta.