Blog do Velho Lobo

Relatos de um velho lobo a respeito de tudo e a respeito do nada.

Capítulo Cinco: Daqui não saio, daqui ninguém me tira!

5 de janeiro de 2009

A senhora com ar severo era a síndica do prédio e vinha com um séquito de senhoras que caberiam sem tirar nem por em uma novela de Dias Gomes.

“Já falamos várias vezes para o para o Dr. Maluf que não queríamos repúblicas aqui!” disse a Margareth Thatcher da Bela Vista. Nós ficamos com as vassouras e rodos na mão, em silêncio por longos três segundos.

“Nós não somos uma república”, por final falei. “Somos profissionais da área de processamento de dados do Banco Itaú, e estamos em São Paulo para um curso”.

Percebi um misto de surpresa e incredulidade naquele pequeno comitê contemporâneo da inquisição.  Deliberaram por alguns instantes e a síndica nos intimou a comparecer ao seu apartamento no mesmo dia à noite para uma conversa.

De banho tomado e roupas de missa, comparecemos ao apartamento da magna mandatária do condomínio que seria nosso endereço por anos inesquecíveis.

Ela nos recebeu de maneira cordial, juntamente com seu marido. Explicou a razão da batida policial horas mais cedo. Realmente tiveram muito trabalho com repúblicas, tanto masculinas quanto femininas. Verdadeiros banzés, com sexo, bebidas e moradores importunados.

Contamos cada um sua história, de onde viemos, como fomos parar lá e o que pretendíamos para o futuro. Fomos convincentes e nos foi permitido morar ali, sob aviso de que seríamos severamente advertidos caso houvesse algum deslize.

Algum tempo depois, percebemos que outra proprietária havia montado também uma república em seu apartamento, abrigando várias “promotoras de eventos”. Basta dizer que as repúblicas se deram muito bem.

O Carlos Roberto, que já havia morado em república nos tempos da faculdade, trouxe a televisão preto e branco e o fogão. A geladeira compramos em loja de usados. Era uma Brastemp da década de 70, com pingüim e tudo. Dormimos por um bom tempo em colchonetes doados pelos companheiros de curso até comprarmos camas em loja de móveis usados e a estante de pinus da sala compramos na Móveis Taurus.

Certa tarde, estávamos voltando para o apartamento quando avistamos duas poltronas de vinil marrom com estofado estampado em vermelho e amarelo, no meio da calçada, para serem recolhidas pela Comlurb. Em dois tempos as poltronas estavam na nossa sala.

Já no segundo dia reparamos algo estranho. Todos nós estávamos com coceira, alguns com irritação alérgica. Descoberta: as poltronas estavam infestadas de pulgas! E consequentemente nosso apartamento também! Caraca! Toca jogar aquelas colônias pulguíferas fora e encher tudo de inseticida. Foram dias de luta contra aqueles monstros sugadores de sangue.

Com o tempo fomos fazendo mais crediários na G. Aronson e Móveis Taurus, mobiliando a sala e adquirindo TV em cores e som três em um.

As contas eram administradas pelo esquema de ”caixinha”, trazido pelo Carlos Roberto, que consistia em crédito para quem fazia supermercado ou pagava alguma conta e débito dividido entre os demais. Assim, quem ficava “negativo”, corria e pagava alguma coisa, a fim de não ficar devedor. Com isso, nunca tivemos problema com a administração das contas.

Conhecemos o bar da Haideè. Descendente de alemães, gente boa prá caramba, onde enchíamos a cara sistematicamente. O Carlos Roberto, portador de fígado mais forte, carregava um por um de volta ao apartamento, havendo invariavelmente quem não conseguisse chegar ao banheiro para devolver a cerveja, fazendo um rastro pelo apartamento.

Vivemos muitas estórias, mas muitas mesmo. Algumas não poderei contar, por respeito ao sigilo entre machos. Porém há outras, pitorescas, que posso dividir com o resto do mundo.

Contarei oportunamente.

Para quem queria ficar em Sampa por três anos, juntar dinheiro, comprar uma Yamaha RD350 e voltar para Nova Iguaçu, e já está há vinte e um anos nessa cidade louca, intrigante e irresistível, tem sido uma experiência sem par.

 

 

 

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1 Comentário »

  1. Comentário por Cs — 7 de janeiro de 2009 (8:54)

    Oi,

    Adorei!
    Esse Carlos Roberto sempre deixando boas historia para contar….rs
    Aguardarei os próximos capítulos. Sempre é muito bom conhecer um pouco mais da vida dos nossos amigos.

    Bj

    Cs

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