Tanque ou tonel?
16 de janeiro de 2009
Vendo meus amigos, sem exceção, na faixa dos 45, 50 anos ostentando suas proeminentes protuberâncias abdominais, e sentindo em mim algo crescendo, que não o desejado, porém crescendo, tendo a refletir: por que se dá tanta importância à barriga masculina? Provavelmente o segundo grande fantasma que ronda as matilhas de velhos lobos pelo mundo afora. O primeiro, desnecessário citar.
A barriga no homem pode ser comparada à celulite na mulher. Ninguém quer, mas quase todo mundo tem. É uma instituição. É, por assim dizer, um argumento sólido para encerrar a discussão. Ele: - Você precisa cuidar da alimentação, já tem uma “celulitezinha” aparecendo. No que ela retruca: - É!?!? E você com esse barrigão de cerveja!?!?! Papo encerrado.
Dizem os especialistas que não é saudável ter a circunferência abdominal acima de 90 cm. Tremei, 98% dos homens! E o negócio é sério. Não se brinca com a saúde, ainda mais depois dos 40.
É lógico que existem as exceções, caras que se cuidam, que tem alimentação equilibrada, sem álcool e carne vermelha, que praticam exercícios físicos regularmente, que visitam anualmente cardiologista, nutricionista, endocrinologista, proctologista e, com mais freqüência, esteticista. É preciso muita disciplina para manter uma vida saudável. E ainda há os preconceituosos que dizem que tudo o que foi dito nesse parágrafo não é coisa de macho. Fazer o que?
Já ouvi frases que abrandam o lado negativo da adiposidade na linha da cintura, sim, porque não é só a barriga, há também as “cartucheiras”, ou “pneus”, que ajudam a compor o kit. “Do que adianta a barriga ser um tanque se a torneira é pequena?”. “Homem que é homem, tem que ter barriguinha (atenção para o diminutivo). Além de ser um apoio macio para o cafuné, também demonstra que o cara se cuida, porém sem exagero.” Pelo que consta, o padrão Beckham não é tão popular o quanto parece.
Ainda há pouco, falei da “barriga de cerveja”. Pois é, a cerveja, essa injustiçada! Culpa-se única e tão somente tão prazeroso líquido pela pança dos pançudos. Na hora da crítica, ninguém se lembra do que, em geral, acompanha a loira gelada. Vem linguiça com maionese e pão, vem pastel de tudo o que é jeito, vem carne picada com cebola, maionese e pão também, vem queijo à milanesa, vem bolinhos para todos os gostos. Profusão de gordura e fritura! E a culpa do aumento do “panceps” fica com a coitada da loirinha! Injustiça!
Há quem diga que não se deve seguir padrões de beleza e estética impostos pela sociedade. O importante é se sentir bem e ser feliz do jeito que se é. Sim, concordo inteiramente com isso.
Porém é muito importante também olhar para baixo e ver, ao menos, a ponta dos pés.
Não deixe para agora o que já poderia ter feito
9 de janeiro de 2009
O tempo não passa, nós é que passamos por ele. Li uma vez em um livro de Richard Bach, que a vida é como as marcas que a água do mar faz na areia submersa. Imagine-se em voo rasante à beira mar, em uma praia de águas límpidas. Você verá sulcos que vão apontando ora para a esquerda, ora para a direita. Se acompanhar um dos sulcos, o verá dividindo-se em dois e assim sucessivamente, infinitamente.
Bach diz que podemos entender as escolhas que fazemos na vida como os sulcos na areia. Uma vez escolhido o caminho, não há volta, não adianta querer mudar de rota ou mesmo ficar pensando em como seria se tivesse tomado a outra direção.
Passando-se pelo tempo percebe-se que o arrependimento é perda de tempo, que procurar culpados pelas escolhas é inóquo, visto que os mesmos não existem.
Somos os únicos responsáveis pelo que acontece ou deixa de acontecer.
Sergio Britto diz em Epitáfio que deveria ter amado mais, chorado mais, arriscado mais. Queria ter aceitado as pessoas como elas são. Pois é, mas não o fez! E se não fizemos, foi porque não quisemos, ou não pudemos. Não adianta ficar olhando para trás, senão a gente tropeça e cai.
Se o que passou nos serve de lição para que não se repitam erros, tudo bem. O que não se pode fazer é avaliar o que passou, ter nova percepção (sempre teremos uma nova percepção a cada vez que avaliarmos uma situação. Não depende da situação, e sim de como estamos no momento) e se martirizar por não ter agido assim ou assado. O que foi feito foi feito da maneira que foi feito, porque era exatamente assim que deveria ter sido feito, e ponto!
Que pareça piegas, lugar comum. Abrace, beije, brigue, dê passagem, ligue, negue, ame, chore, arrisque, faça um favor, uma gentileza, resolva aquele mal entendido do qual você nem se lembra direito, fale aquelas verdades para seu chefe, fale aquelas verdades para aquele que trabalha com você, sorria, elogie, seja sincero, mesmo que machuque.
“Não tenha pressa, mas não perca tempo”.
Jose Saramago.
Capítulo Cinco: Daqui não saio, daqui ninguém me tira!
5 de janeiro de 2009
A senhora com ar severo era a síndica do prédio e vinha com um séquito de senhoras que caberiam sem tirar nem por em uma novela de Dias Gomes.
“Já falamos várias vezes para o para o Dr. Maluf que não queríamos repúblicas aqui!” disse a Margareth Thatcher da Bela Vista. Nós ficamos com as vassouras e rodos na mão, em silêncio por longos três segundos.
“Nós não somos uma república”, por final falei. “Somos profissionais da área de processamento de dados do Banco Itaú, e estamos em São Paulo para um curso”.
Percebi um misto de surpresa e incredulidade naquele pequeno comitê contemporâneo da inquisição. Deliberaram por alguns instantes e a síndica nos intimou a comparecer ao seu apartamento no mesmo dia à noite para uma conversa.
De banho tomado e roupas de missa, comparecemos ao apartamento da magna mandatária do condomínio que seria nosso endereço por anos inesquecíveis.
Ela nos recebeu de maneira cordial, juntamente com seu marido. Explicou a razão da batida policial horas mais cedo. Realmente tiveram muito trabalho com repúblicas, tanto masculinas quanto femininas. Verdadeiros banzés, com sexo, bebidas e moradores importunados.
Contamos cada um sua história, de onde viemos, como fomos parar lá e o que pretendíamos para o futuro. Fomos convincentes e nos foi permitido morar ali, sob aviso de que seríamos severamente advertidos caso houvesse algum deslize.
Algum tempo depois, percebemos que outra proprietária havia montado também uma república em seu apartamento, abrigando várias “promotoras de eventos”. Basta dizer que as repúblicas se deram muito bem.
O Carlos Roberto, que já havia morado em república nos tempos da faculdade, trouxe a televisão preto e branco e o fogão. A geladeira compramos em loja de usados. Era uma Brastemp da década de 70, com pingüim e tudo. Dormimos por um bom tempo em colchonetes doados pelos companheiros de curso até comprarmos camas em loja de móveis usados e a estante de pinus da sala compramos na Móveis Taurus.
Certa tarde, estávamos voltando para o apartamento quando avistamos duas poltronas de vinil marrom com estofado estampado em vermelho e amarelo, no meio da calçada, para serem recolhidas pela Comlurb. Em dois tempos as poltronas estavam na nossa sala.
Já no segundo dia reparamos algo estranho. Todos nós estávamos com coceira, alguns com irritação alérgica. Descoberta: as poltronas estavam infestadas de pulgas! E consequentemente nosso apartamento também! Caraca! Toca jogar aquelas colônias pulguíferas fora e encher tudo de inseticida. Foram dias de luta contra aqueles monstros sugadores de sangue.
Com o tempo fomos fazendo mais crediários na G. Aronson e Móveis Taurus, mobiliando a sala e adquirindo TV em cores e som três em um.
As contas eram administradas pelo esquema de ”caixinha”, trazido pelo Carlos Roberto, que consistia em crédito para quem fazia supermercado ou pagava alguma conta e débito dividido entre os demais. Assim, quem ficava “negativo”, corria e pagava alguma coisa, a fim de não ficar devedor. Com isso, nunca tivemos problema com a administração das contas.
Conhecemos o bar da Haideè. Descendente de alemães, gente boa prá caramba, onde enchíamos a cara sistematicamente. O Carlos Roberto, portador de fígado mais forte, carregava um por um de volta ao apartamento, havendo invariavelmente quem não conseguisse chegar ao banheiro para devolver a cerveja, fazendo um rastro pelo apartamento.
Vivemos muitas estórias, mas muitas mesmo. Algumas não poderei contar, por respeito ao sigilo entre machos. Porém há outras, pitorescas, que posso dividir com o resto do mundo.
Contarei oportunamente.
Para quem queria ficar em Sampa por três anos, juntar dinheiro, comprar uma Yamaha RD350 e voltar para Nova Iguaçu, e já está há vinte e um anos nessa cidade louca, intrigante e irresistível, tem sido uma experiência sem par.

