Meu Pai
6 de agosto de 2007
Quando era moleque, queria por quê queria ser como meu pai: bem-humorado, trabalhador, justo, sereno, romântico (eu me deliciava com as cartas e com os desenhos que ele mandava para minha mãe). Nunca foi de ficar em bares, sempre de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Eu colocava a camisa da farda e o quepe que caia até a altura dos olhos e ficava batendo continência na frente do espelho, torcendo para crescer logo e seguir, como ele, a carreira militar.
Ele vem de uma família grande a paupérrima do interior do Rio de Janeiro. Com a morte prematura do meu avô (de pneumonia aos 41 anos), minha avó se viu na dolorosa, porém inevitável situação de deixar alguns de seus filhos com famílias de mais posses, para que não passassem necessidades, visto que ela não tinha condições de sustentar a todos.
Meu pai então pegou pelas mãos dois de seus irmãos menores e caminhou vários quilômetros até uma escola interna agrícola, explicou a situação para os responsáveis e convenceu-os a abrigar os três, a fim de fugir da miséria iminente. Lá ele aprendeu seu ofício, tornando-se marceneiro, só saindo para alistar-se na Aeronáutica (opção muito utilizada naquela época por rapazes de origem humilde, já que na caserna havia a certeza de ocupação, cama e comida).
Casou-se com a primeira namorada e sempre fez de tudo para que não faltasse nada. Cumpria as obrigações a ele atribuídas durante o dia no quartel, avançando até à noite com os serviços de marcenaria assumidos para complementação do sempre apertado orçamento doméstico.
Não completou a quarta série primária, mas da vida se fez professor. Autodidata incorrigível, quando acabrunhado com algum assunto, não sossega enquanto não absorver o máximo possível de conhecimento a respeito. Com as próprias mãos levantou, desde o alicerce, a casa onde abrigou sua família. Um a um fez os tacos que cobriam o chão que minha mãe deixava com um inesquecível cheiro de cera Parquetina. Nunca levou o carro ao mecânico, trocando desde uma lâmpada até as mais complexas operações de manutenção em um automóvel.
Fez do viver pela família seu objetivo de vida e vem cumprindo sua sina com garra, determinação e força. Tem sempre uma mensagem de esperança, uma palavra de conforto. Exemplo de superação.
Nem o nascimento de um filho com síndrome de Down o fez esmorecer, dividindo com minha mãe o mel e o fel que é ter um filho especial.
Lembro-me de um natal em que o dinheiro, que sempre foi curto, não deu para comprar presentes para mim e minha irmã. Ele então, com o dom que Deus lhe deu, fez uma penteadeira de boneca para minha irmã e um jogo de pregos (quem tem por volta dos quarenta sabe o que é) para mim. Os brinquedos foram embalados com o papel que embrulhava as compras de mercado naquele tempo. Confesso que em um primeiro momento pensei que poderia ter ganhado um carro ou uma bola, porém essas imagens imediatamente se dissiparam ao reconhecer que ele, com esforço e criatividade não deixou que o Natal passasse em branco para nós.
É, eu queria ser como meu pai, mas já me conformei que nunca o serei.
Para isso, teria que viver mais duas vidas, rezando para que Deus me inundasse de luz, discernimento e força.
Um beijo, meu pai.

