Blog do Velho Lobo

Relatos de um velho lobo a respeito de tudo e a respeito do nada.

Lembrança Viva

23 de julho de 2007

É mudando de domicílio que damos conta da quantidade de tralhas que guardamos ao longo do tempo. São roupas que já não cabem há anos, a impressora que deu problema e ficou mais barato comprar outra, o aparelho de DVD que deu problema e ficou mais barato comprar outro, aquela bicicleta ergométrica que espantaria de vez o sedentarismo e agora serve de mancebo, aquela esteira que definitivamente espantaria de vez o sedentarismo e agora serve de mancebo, o equipamento para mergulho livre que foi usado uma única vez e assim por diante.

Fazendo a triagem de toda essa tranqueirada, entrei em uma espécie de transe saudosista, viajando de volta aos cenários que tinham como ponto central cada objeto daquele. Cada um com sua história, representando peças do quebra-cabeças que é minha vida.

Uma viagem em particular me levou para bem longe. Levou-me para Barão de Javari, uma localidade bem pequenininha, bairro de Miguel Pereira, cidade deliciosa do interior do Rio de Janeiro.

Em Javari passei uma fase maravilhosa, com amigos incríveis e situações igualmente incríveis. Pois bem, mexendo nas caixas para descobrir quais segredos guardavam, encontrei um livro onde pedi para que cada um dos meus amigos daquela época escrevesse algo para que eu guardasse de recordação. Imediatamente fui remetido a um dia ensolarado de outono, com o vento trazendo um friozinho gostoso. Pude sentir o cheiro de eucalipto, árvore predominante na região e ouvir as vozes daqueles que representaram tanto na minha vida.

Vi-me acordando no sábado em casa de minha tia Gercira, ouvindo-a cantarolar a música do Rei Roberto que tocava na vitrola, e o “lep-lep-lep” de seus chinelos andando rapidamente no circuito quarto/cozinha/quintal em conjunto com o cheirinho de café e de seus insuperáveis bolinhos de chuva (que eu chamava de bolinhos de açúcar). Olhando pela portinhola da porta da sala para o vizinho sítio Colibri e percebendo que havia gente lá, que meus amigos subiram a serra, que seria mais um final de semana sensacional.

De repente lá estava eu na varanda tentando tocar a música que seria o marco inicial de minha carreira de violonista limitado, porém esforçado: “Oi, trepa no coqueiro, tira côco, xique-xique, nheco-nheco no coqueiro ô, lê, á…”. Minha prima Lourdinha acordando fula da vida com o barulho (essa minha prima é seguramente a pessoa mais irada ao ser acordada que conheço), Maria Helena passando com cara de sono reclamando alguma coisa de seu irmão Ronaldinho, que por sua vez era chamado de “vela” por ser branco tal e qual. Gisele gritando com sua mãe Vilma que gritava com sua filha Gisele. Flavinho babando no travesseiro enquanto Neto e Orlandinho discutiam se Ozzy Osbourne era mais vocal que Bruce Dickinson.

A Simone discursando a respeito da insustentável leveza do ser, no momento em que Júnior Primo chegava em companhia de Júnior Medina para fazer nada conosco.

Foram tantas aventuras dessa turma, tantas passagens interessantes, como se perder em floresta, fugir de vaca com bezerro novo (elas ficam umas feras protegendo a cria), ataque de vespas ensandecidas, porres descomunais, carnavais inesquecíveis. Comentei várias vezes que éramos uma espécie de turma do Sïtio do Pica-Pau Amarelo e que escreveria sobre nossos feitos. Um dia ainda o farei.

Acordo de meu transe com a porta que bate com o vento. Guardo o livro que para mim é um verdadeiro baú de memórias, um projetor de clipes de uma fase extremamente bem vivida, graças ao bom Deus.

 

Gaiola de Gente

11 de julho de 2007

 

Mudamos recentemente de um antigo e charmoso sobrado para um apartamento. Os argumentos para a troca vão desde maior segurança até a inclusão social das crianças, com escala no “tem menos espaço para juntar tranqueiras e menos coisa para limpar”. O imóvel é aconchegante, já que as pessoas ficam muito mais próximas umas das outras. Nunca o termo “imóvel” se fez tão presente, com cinco pessoas compartilhando 70 metros quadrados, dificultando a movimentação às vezes.

De minha sacada de 30cm por 50cm, vejo a rua barulhenta, com pessoas apressadas apressando outras tão apressadas quanto, tentando chegar mais rápido ao próximo dos 34 sinais que um motorista enfrenta em média em Sampa saindo de qualquer ponto para outro qualquer, seja qual for. Tomo um solavanco de saudosismo, lembrando de como havia espaço na minha infância, onde o mundo era meu quintal. Ao mesmo tempo fico triste por meus filhos necessitarem de meia hora de carro para chegar a algum dos parques, aguardar pacientemente a procura por uma vaga para estacionar, para por fim pisar na terra e pegar um pouco de sol, entre bicicletas e cachorros.

Outra coisa que me intriga: será que a maioria dos habitantes de apartamentos sempre foi chata ou transformaram-se depois que passaram a viver em confinamento? Independe se a moradia tem 70 ou 700 metros quadrados, se é um prédio de alto padrão ou uma unidade da COHAB, é sempre um pé no saco.

Como os cômodos de minha atual residência são diminutos, os móveis foram planejados para aproveitar o máximo de espaço. O marceneiro teve que trazer as coisas em módulos. Pois bem, enquanto trazia algumas peças, o interfone não parava de avisar que ainda havia coisas na garagem. Ao perguntar se estava atrapalhando alguém, ouvi que não, porém mesmo assim eu tinha que tirar as coisas dali o quanto antes, pois estavam reclamando.

Depois da reforma que acabou com minha paciência e meu limite do cheque, tive uma grata surpresa. Lembro com fosse ontem (bom, na verdade faz dois dias). Era um ensolarado domingo. A manhã transcorria normalmente quando notei uma nascente na área de serviço. Depois de alguns segundos de perplexidade, me dei conta de que não era possível existir uma nascente no quinto andar de um edifício. Sim, era um belo de um vazamento d’água.

Liguei para a portaria clamando por ajuda. O solícito porteiro veio imediatamente. –É, seu Ricardo, tá vazando mesmo! Depois dessa brilhante constatação, ele disse que iria chamar o Carlinhos. Pensei: beleza, esse Carlinhos deve ser o cara! Vai resolver o problema. O Carlinhos chegou em seguida, deu uma bela olhada, pensou, pensou e determinou: É, seu Ricardo, tá vazando mesmo! Pasmo com a rapidez do diagnóstico, pergunto como resolver então. Sou informado de que o zelador não mora no prédio e o responsável pela manutenção, que atende pela alcunha de “Ceará”, estava viajando.

Entro em contato com o zelador que determina que não posso quebrar a parede para consertar o vazamento porquê é domingo e tampouco no dia seguinte, já que seria feriado. Argumento que o caso é de emergência, que o vazamento é grande e pode danificar o apartamento de baixo. Ouço que ele não prejudicaria muitos por causa de um só. Bacana, né?

Diante da enxurrada de bom senso e boa vontade, a água foi fechada até o sétimo andar e assim ficará até que eu conserte o vazamento, algo em torno de uma semana, mais ou menos.

Por questões óbvias, não estou utilizando o elevador.

Meus filhos estão adorando viver em sociedade. Minha esposa tem a mãe morando no outro bloco. E eu? Bem…tô me sentindo o papagaio de meu antigo vizinho: preso na gaiola, mas fazendo um barulho danado.

Em que posso estar ajudando, senhor?

5 de julho de 2007

 

Deve haver milhares de textos discorrendo a respeito dos pitorescos e sensacionais SAC’s (Serviços de Aborrecimento de Clientes). Nada me tira da cabeça a idéia de que existe uma grande conspiração, envolvendo todos os helpdesk’s do mundo, tendo como diabólico propósito o gradual enlouquecimento das pessoas, executando o maquiavélico plano: primeiro priva-se o ser humano de necessidades básicas como TV a cabo, Internê e telefone, gerando problemas diversos. Depois se faz o possível para dificultar ao máximo a resolução dos mesmos.

Tive a brilhante idéia de adquirir um pacote que inclui TV, telefone e banda larga, ou seja, quando há problema, fico logo sem os três. E tem mais, a ligação para o suporte é cobrada. Da última vez que fiquei sem telefone, gastei o valor da mensalidade em ligações de celular penando para resolver o problema.

Certo dia, tentando solucionar um dos freqüentes impasses que enfrento com essa operadora de TV a cabo, telefone e banda larga, travei um diálogo que obviamente não lembro na íntegra, mas foi algo mais ou menos assim:

URA: Bem-vindo à central de relacionamento (nome da operadora). Para agilizar seu atendimento digite seu código de assinante composto por doze(isso, doze!) números ou o CPF do titular. Para falar sobre TV por assinatura, digite 1, para telefone, digite 2, para isso ou aquilo, digite 3 e assim foi até o 9.

Quando chego a ouvir a opção 9, já não lembro direito das outras, ficando na dúvida sobre qual atende exatamente à minha necessidade, tendo portanto que ouvir mais uma ou duas vezes a voz metálica que repete.

Após digitar a provável opção correta, ouço intermináveis minutos de todos os produtos disponíveis. Já estava ouvindo a cantilena pela terceira vez quando:

Atendente: Verônica Fátima, com quem falo?
Mané: Ricardo
A: O código do assinante, por favor? (se digitei tudo na URA, por quê tenho que falar de novo?).
M: Código tal.
A: Confirme o endereço de instalação, por favor.
M: Endereço tal.
A: Muito obrigado pelas informações. Em que posso ajudá-lo?
M: Estou sem sinal de TV.
A: O Senhor Está sem sinal de TV?
M: Sim, estou.
A: (pausa) Senhor, estou “sem o sistema” para averiguação do problema. O senhor terá que ligar novamente(patcha! Se estava sem o sistema, por quê me perguntou tudo aquilo, sabendo que não poderia continuar o atendimento?).
M: Ligar novamente? Não dá para transferir para alguém que tenha “o sistema”?
A: Senhor, não é possível.
M: E se quando eu ligar novamente cair em alguém que esteja “sem o sistema”?
A: O Senhor terá que ligar novamente até dar sorte e encontrar alguém com o sistema disponível. (isso, a sorte é fundamental!).

Ligo novamente, ouço a novena da URA novamente até que:

A: Marcele Aparecida, com quem falo?
M: Ricardo.
A: O código do assinante, por favor?
M: Código tal.
A: Confirme o endereço de instalação, por favor.
M: Endereço tal.
A: Muito obrigado pelas informações. Em que posso ajudá-lo?
M: Estou sem sinal de TV.
A: O Senhor Está sem sinal de TV?
M: Sim, estou.
A: Quantos pontos há em sua residência?
M: Dois.
A: Os dois estão sem sinal?
M: Sim.
A: Qual o código do decodificador, por favor?
M: Código do decodificador?
A: Sim.
M: Onde fica isso?
A: Embaixo do decodificador. (é lógico que o decodificador foi instalado com os cabos sem nenhuma folga, fazendo com que a identificação seja um trabalho e tanto. Peno para achar uma caneta e anoto as 35 letras e números do código).
M: Código tal.
A: Um instante que estarei verificando. (ou você pensa que o gerúndio não viria?).

Intermináveis minutos e a cantilena de produtos novamente.

A: Muito obrigado por ter esperado senhor. Por favor, desligue a TV da tomada.
M: Ok.
A: Espere dois minutos e ligue de novo.
M: Ok, liguei.
A: Ligue o decodificador e aguarde a luzinha amarela acender.
M: Hummm… ok, a luzinha amarela está acesa.
A: O sinal voltou, senhor?
M: Não.
A: Senhor, estarei transferindo sua ligação para o setor técnico. Só um instante.
M: Ok…

Produtos, e blá, blá, blá…

A: Roberto Adolfo, com quem falo? (cacete, se transferiu a ligação, já não deveria vir com os dados do mané?).
M: Ricardo.
A: O código do assinante, por favor? (sisteminha de melda. Por quê não disponibiliza os dados do cliente, já que a ligação foi transferida!?!?!)
M: Código tal.
A: Confirme o endereço de instalação, por favor. (tudo de novo, puêrra!?!?!)
M: Endereço tal.
A: Muito obrigado pelas informações. Em que posso ajudá-lo?
M: Estou sem sinal de TV.
A: O Senhor Está sem sinal de TV?
M: Sim, estou.
A: Qual é o código do decodificador, por favor? (só pode ser sacanagem)
M: Código tal.
A: Senhor, desligue a TV da tomada.
M: Já fiz isso com a outra atendente e não deu certo.
A: (levemente irritado) Senhor, para fazer o diagnóstico, preciso que o senhor desligue a TV da tomada.
M: (suspiro de resignação) Ok…
A: Aguarde dois minutos e ligue de novo.
M: Ok, liguei…
A: A luzinha amarela do decodificador está acesa?
M: Sim, está.
A: Só a amarela?
M: Deixa eu ver… sim, só a amarela.
A: O sinal voltou?
M: Não.
A: Senhor, nesse caso vou estar agendando uma visita técnica para daqui a três dias.
M: TRÊS DIAS!?!?!? Estou sem TV agora e o técnico vem daqui a três dias!?!?!
A: Senhor, é o dia que tenho disponível para o técnico estar indo à sua residência para estar verificando o problema.
M: Isso é um absurdo! Quero falar com o grupo de relacionamento! (descobri que havia esse setor quando apanhei que nem boi fujão de uma operadora de celular).
A: Só um instante senhor que vou estar transferindo.

Produtos, pay per view, show da Celine Dion, blá, blá, blá…

A: Grupo de relacionamento, Aline Márcia, com quem falo?
M: (Ai meu Deus do céu!!!) Ricardo.
A: O código do assinante, por favor? (já sei de cor e salteado).
M: Código tal.
A: Confirme o endereço de instalação, por favor. (sistema lixo, não há a menor interação entre os setores).
M: Endereço tal.
A: Muito obrigado pelas informações. Em que posso ajudá-lo? (taqueospa, se a ligação foi transferida para uma equipe especializada em dar cabo de pepinos, por quê diabos o histórico da conversa não é acessado para adiantar o processo?).
M: Estou sem sinal de TV.
A: O Sr. Está sem sinal de TV?
M: Sim! Estou sem sinal de TV, já desliguei a TV da tomada várias vezes, a luzinha amarela acendeu, apagou, acendeu de novo, me falaram que o técnico viria em três dias e tô achando o serviço de vocês uma porcaria!
A: Senhor, no nosso sistema não consta falha de sinal em sua região. Para verificar o problema, teremos realmente que estar agendando uma visita técnica.
M: (Me dou por vencido, sinto minhas forças se esvaírem num mar de resignação) Ok, fico no aguardo.
A: Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?(e me ajudou em quê!?!?!)
M: Não.
A: A (nome da operadora) agradece sua ligação e tenha um bom dia.
M: Grunf.

Ah que saudade do tempo em que meu pai subia na laje para ajustar a antena da TV e ficava numa gritaria danada com minha mãe da sala conferindo o progresso do procedimento:
- Tá bom?!?
- Não!
- Melhorou?!?
- Um pouquinho!!!
- E agora!?!?
- Tá bom!!! Não mexe mais!!!!

Ou então o bom e velho bom bril estrategicamente envolto na antena interna.

É… bons tempos aqueles…

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