
Deve haver milhares de textos discorrendo a respeito dos pitorescos e sensacionais SAC’s (Serviços de Aborrecimento de Clientes). Nada me tira da cabeça a idéia de que existe uma grande conspiração, envolvendo todos os helpdesk’s do mundo, tendo como diabólico propósito o gradual enlouquecimento das pessoas, executando o maquiavélico plano: primeiro priva-se o ser humano de necessidades básicas como TV a cabo, Internê e telefone, gerando problemas diversos. Depois se faz o possível para dificultar ao máximo a resolução dos mesmos.
Tive a brilhante idéia de adquirir um pacote que inclui TV, telefone e banda larga, ou seja, quando há problema, fico logo sem os três. E tem mais, a ligação para o suporte é cobrada. Da última vez que fiquei sem telefone, gastei o valor da mensalidade em ligações de celular penando para resolver o problema.
Certo dia, tentando solucionar um dos freqüentes impasses que enfrento com essa operadora de TV a cabo, telefone e banda larga, travei um diálogo que obviamente não lembro na íntegra, mas foi algo mais ou menos assim:
URA: Bem-vindo à central de relacionamento (nome da operadora). Para agilizar seu atendimento digite seu código de assinante composto por doze(isso, doze!) números ou o CPF do titular. Para falar sobre TV por assinatura, digite 1, para telefone, digite 2, para isso ou aquilo, digite 3 e assim foi até o 9.
Quando chego a ouvir a opção 9, já não lembro direito das outras, ficando na dúvida sobre qual atende exatamente à minha necessidade, tendo portanto que ouvir mais uma ou duas vezes a voz metálica que repete.
Após digitar a provável opção correta, ouço intermináveis minutos de todos os produtos disponíveis. Já estava ouvindo a cantilena pela terceira vez quando:
Atendente: Verônica Fátima, com quem falo?
Mané: Ricardo
A: O código do assinante, por favor? (se digitei tudo na URA, por quê tenho que falar de novo?).
M: Código tal.
A: Confirme o endereço de instalação, por favor.
M: Endereço tal.
A: Muito obrigado pelas informações. Em que posso ajudá-lo?
M: Estou sem sinal de TV.
A: O Senhor Está sem sinal de TV?
M: Sim, estou.
A: (pausa) Senhor, estou “sem o sistema” para averiguação do problema. O senhor terá que ligar novamente(patcha! Se estava sem o sistema, por quê me perguntou tudo aquilo, sabendo que não poderia continuar o atendimento?).
M: Ligar novamente? Não dá para transferir para alguém que tenha “o sistema”?
A: Senhor, não é possível.
M: E se quando eu ligar novamente cair em alguém que esteja “sem o sistema”?
A: O Senhor terá que ligar novamente até dar sorte e encontrar alguém com o sistema disponível. (isso, a sorte é fundamental!).
Ligo novamente, ouço a novena da URA novamente até que:
A: Marcele Aparecida, com quem falo?
M: Ricardo.
A: O código do assinante, por favor?
M: Código tal.
A: Confirme o endereço de instalação, por favor.
M: Endereço tal.
A: Muito obrigado pelas informações. Em que posso ajudá-lo?
M: Estou sem sinal de TV.
A: O Senhor Está sem sinal de TV?
M: Sim, estou.
A: Quantos pontos há em sua residência?
M: Dois.
A: Os dois estão sem sinal?
M: Sim.
A: Qual o código do decodificador, por favor?
M: Código do decodificador?
A: Sim.
M: Onde fica isso?
A: Embaixo do decodificador. (é lógico que o decodificador foi instalado com os cabos sem nenhuma folga, fazendo com que a identificação seja um trabalho e tanto. Peno para achar uma caneta e anoto as 35 letras e números do código).
M: Código tal.
A: Um instante que estarei verificando. (ou você pensa que o gerúndio não viria?).
Intermináveis minutos e a cantilena de produtos novamente.
A: Muito obrigado por ter esperado senhor. Por favor, desligue a TV da tomada.
M: Ok.
A: Espere dois minutos e ligue de novo.
M: Ok, liguei.
A: Ligue o decodificador e aguarde a luzinha amarela acender.
M: Hummm… ok, a luzinha amarela está acesa.
A: O sinal voltou, senhor?
M: Não.
A: Senhor, estarei transferindo sua ligação para o setor técnico. Só um instante.
M: Ok…
Produtos, e blá, blá, blá…
A: Roberto Adolfo, com quem falo? (cacete, se transferiu a ligação, já não deveria vir com os dados do mané?).
M: Ricardo.
A: O código do assinante, por favor? (sisteminha de melda. Por quê não disponibiliza os dados do cliente, já que a ligação foi transferida!?!?!)
M: Código tal.
A: Confirme o endereço de instalação, por favor. (tudo de novo, puêrra!?!?!)
M: Endereço tal.
A: Muito obrigado pelas informações. Em que posso ajudá-lo?
M: Estou sem sinal de TV.
A: O Senhor Está sem sinal de TV?
M: Sim, estou.
A: Qual é o código do decodificador, por favor? (só pode ser sacanagem)
M: Código tal.
A: Senhor, desligue a TV da tomada.
M: Já fiz isso com a outra atendente e não deu certo.
A: (levemente irritado) Senhor, para fazer o diagnóstico, preciso que o senhor desligue a TV da tomada.
M: (suspiro de resignação) Ok…
A: Aguarde dois minutos e ligue de novo.
M: Ok, liguei…
A: A luzinha amarela do decodificador está acesa?
M: Sim, está.
A: Só a amarela?
M: Deixa eu ver… sim, só a amarela.
A: O sinal voltou?
M: Não.
A: Senhor, nesse caso vou estar agendando uma visita técnica para daqui a três dias.
M: TRÊS DIAS!?!?!? Estou sem TV agora e o técnico vem daqui a três dias!?!?!
A: Senhor, é o dia que tenho disponível para o técnico estar indo à sua residência para estar verificando o problema.
M: Isso é um absurdo! Quero falar com o grupo de relacionamento! (descobri que havia esse setor quando apanhei que nem boi fujão de uma operadora de celular).
A: Só um instante senhor que vou estar transferindo.
Produtos, pay per view, show da Celine Dion, blá, blá, blá…
A: Grupo de relacionamento, Aline Márcia, com quem falo?
M: (Ai meu Deus do céu!!!) Ricardo.
A: O código do assinante, por favor? (já sei de cor e salteado).
M: Código tal.
A: Confirme o endereço de instalação, por favor. (sistema lixo, não há a menor interação entre os setores).
M: Endereço tal.
A: Muito obrigado pelas informações. Em que posso ajudá-lo? (taqueospa, se a ligação foi transferida para uma equipe especializada em dar cabo de pepinos, por quê diabos o histórico da conversa não é acessado para adiantar o processo?).
M: Estou sem sinal de TV.
A: O Sr. Está sem sinal de TV?
M: Sim! Estou sem sinal de TV, já desliguei a TV da tomada várias vezes, a luzinha amarela acendeu, apagou, acendeu de novo, me falaram que o técnico viria em três dias e tô achando o serviço de vocês uma porcaria!
A: Senhor, no nosso sistema não consta falha de sinal em sua região. Para verificar o problema, teremos realmente que estar agendando uma visita técnica.
M: (Me dou por vencido, sinto minhas forças se esvaírem num mar de resignação) Ok, fico no aguardo.
A: Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?(e me ajudou em quê!?!?!)
M: Não.
A: A (nome da operadora) agradece sua ligação e tenha um bom dia.
M: Grunf.
Ah que saudade do tempo em que meu pai subia na laje para ajustar a antena da TV e ficava numa gritaria danada com minha mãe da sala conferindo o progresso do procedimento:
- Tá bom?!?
- Não!
- Melhorou?!?
- Um pouquinho!!!
- E agora!?!?
- Tá bom!!! Não mexe mais!!!!
Ou então o bom e velho bom bril estrategicamente envolto na antena interna.
É… bons tempos aqueles…