Blog do Velho Lobo

Relatos de um velho lobo a respeito de tudo e a respeito do nada.

Vampiros e Colibris

18 de outubro de 2009

 

Vampiros de almas. Alguém que se apropria de parte da energia vital de outros, por vezes involuntariamente.  A constante busca pela satisfação, pelo que se acredita estar faltando para si, faz com que captem em outras pessoas partes de seu ideal de vida. Não se conformam em não conseguir, já que tantos conseguem, em não alcançar seus objetivos, quando tantos alcançam.

Há casos extremos em que manipulam quem está próximo de tal forma, que transformam a quem se mostra suscetível em marionetes humanas, movimentando-as a seu bel prazer, vivendo suas vidas, transformando-as em meios de aliviar seu desequilíbrio.

O caso é que o desequilíbrio permanecerá, por si só, por não haver como trazer de fora o que se resolve olhando para dentro. Os vampiros são como sacos sem fundo, da mesma forma como sugam a energia dos outros, desperdiçam-na, com sua visão equivocada do que realmente necessitam para viver plenamente. A força interior é que deve ser conhecida, compreendida e utilizada.

Caracterizam-se por apresentarem-se às vezes contrariados, propagando que as coisas não dão certo ou que é preciso luta inglória para que dêem. Há vezes em que se apresentam com as soluções para os problemas dos outros, incidindo na vida das pessoas, tomando por elas as decisões que não têm coragem de tomar por e para si próprios. Muito pelo motivo de que as conseqüências dessas decisões não os afetarão e sim às suas vítimas.  

Vampiros de almas produzem vampiros de almas. Pessoas atacadas por eles se sentem invariavelmente fracas, deprimidas, tristes, sem saber direito o motivo. O caminho natural é pedir ajuda, envolver outras pessoas em seus problemas, repassando o que é ruim, fazendo com que se divida o que é bom.

E assim segue a corrente.

Colibris. As pequeninas e simpáticas aves vão de flor em flor, buscando seu alimento, seu sustento, o que lhes falta, porém sem maltratar a flor, sem lhe tirar a cor, a vida. Atuando como polinizadores, ajudam na proliferação das plantas, trazendo ainda mais flores, mais cores, mais vida.

 Falemos dos colibris de almas. Sim, isso mesmo, colibris de almas. São iguais aos vampiros na forma, porém totalmente diferentes no efeito.

Os colibris de almas também usam da energia as pessoas, porém de forma positiva, deixando algo de bom. Trocando, e não sugando apenas. São retransmissores, polinizadores de boas vibrações, transportadores do bem.

Não é difícil identificar um colibri de almas. Estão sempre de bem com a vida, sorriso franco e dispostos a ajudar. Não que não tenham problemas, porém o que os diferencia é a forma com a qual lidam com eles. Sempre de forma direta e objetiva, buscando a solução, sem protelações.

Os colibris podem e são atacados pelos vampiros, porém têm tanta força, que não se deixam levar, têm tanta luz que acabam por afastar os usurpadores de energia.

Tudo leva a crer que estamos divididos entre vampiros e colibris, cabendo a cada um de nós identificar com qual dos dois está lidando e se preparar para as consequências.

 

Em qual grupo você se enquadra? Pense nisso.  

Truco! Rato de esgoto, reboco de igreja véia, filho de Maria mais eu!

7 de outubro de 2009

Duas coisas me intrigavam nos primeiros tempos de retirante em Sampa: por que comiam churrasco com pão e o jogo de truco.

Quanto ao churrasco com pão, até que me adaptei. Não com facilidade, porém me adaptei.

Agora, o truco deu trabalho. Não conseguia entender aquele monte de gente gritando, xingando uns aos outros e socando a mesa. E o melhor, divertindo-se! E muito!

Coloquei na cabeça que não descansaria enquanto não aprendesse o jogo. Aporrinhei  vizinhos e amigos para que me ensinassem, andava com baralho no bolso para cima e para baixo até que algo aconteceu. Algo que mudaria minha relação com o jogo de truco definitivamente.

A quadra do Vavá!

Sim, paciente e dileto(a) leitor(a), a quadra do Vavá! Espaço na aprazível Vila Guilherme, zona norte de Sampa, reservado à prática de futsal, consumo de cerveja, torresmo e ovo colorido.

Quadra de primeira qualidade, com infra-estrutura superior à média da região. 

Há alguns anos, alguns amigos amantes de futsal e truco, resolveram montar uma mesa enquanto esperavam a hora de jogar bola, defendendo as cores do 100 Juízo ou do Excelsior, verdadeiros esquadrões do futsal regional.

A esses amigos juntaram-se outros, que nem bola jogavam mais, como esse que vos escreve.

O truco era de trio, melhor de três quedas. A cada partida desciam três brejas, a serem pagas pelo trio perdedor. Quem ficava de fora, fazia a vez de “sapo”, secando quem jogava e bebendo também, porque ninguém é de ferro.

Bom, já dá para imaginar em que estado ficavam os atletas após o quarto ou quinto jogo. Todo mundo bem balão, fazendo o jogo ainda mais divertido, já que ficava todo mundo ousado.  

Ali não se pensava na roubalheira em Brasília, na violência urbana, na bolha assassina e muito menos em quem teria entortado o pepino. Era diversão pura, catarse total. Ia para casa flutuando. Em paz e aliviado.  

Na quadra do Vavá joguei o melhor truco da minha vida. Maurão, Ivan, Paulão, Pirula, Nenê, Kiko, Giba, Totinha, Marcio Pinga, Lalo, Marquinhos, Mario, Mosca.

Seleção de ouro.

Um salve a todos!

 

 

 

 

 

 

O Sofá

4 de julho de 2009

Estava eu outro dia, com dois bons amigos, no muito agradável bar anexo ao Museu do Futebol, no estádio do Pacaembu, conversando coisas que homens conversam: futebol, mercado financeiro, belas artes e a impenetrável e indecifrável mente feminina.

Quando de repente, não mais que de repente, o Bira, alagoano de fala mansa e mente extremamente ágil e astuta, proclama: “Há um vilão que interfere sobremaneira nos relacionamentos e passa quase que completamente despercebido como tal: o sofá!”

Sim, pensativo(a) leitor(a), o bom e velho sofá!

Que homem casado há pelo menos dois dias já não fez uso de tão importante parte da mobília? Tem coisa melhor do que se refestelar após o almoço e cochilar assistindo ao VT da final do campeonato de futebol maranhense de 1976, Ou a trocentésima reprise de “Exterminador do Futuro”?

Mas essa prática é abominada pelas respectivas. Por que, eu pergunto, por quê? Será que nós, guerreiros não merecemos essa pausa, a fim de recuperarmos um pouco do que a luta diária nos tira?

Outro dia fiz um teste. Como sempre, após o almoço, arrumei a mesa e lavei a louça. Porém, ao invés de deitar no sofá, fui para meu quarto. Para minha surpresa, em lugar de reclamação, de frases como “esse sofá vai ficar com seu formato, de tanto que voce fica nele”, ouvi “shiu, não façam barulho, seu pai tá deitado. Ele precisa descansar”.

!?!?!?!?

Confirmado! O problema é o sofá!!!

Há também quem agrave o estigma: conheço um jovem rapaz que, para atender ao pedido da esposa em adquirir uma TV nova para a sala, condicionou o ato à compra de um sofá novo. Mas não poderia ser um sofá qualquer, tinha que possibilitá-lo esticar-se todo e ainda sobrar bom espaço, tanto para a cabeça quanto para os pés. Acordo selado, compra feita. Venhamos e convenhamos, assim fica difícil negar.

Mais uma:

Morávamos em um sobrado. Sempre acordei cedo, mesmo aos finais de semana. Um belo sábado, desci, arrumei toda a bagunça que as crianças fizeram na sala, fui para a cozinha, lavei toda a louça da noite anterior, arrumei tudo e passei pano no chão. Já no quintal, recolhi uns cinco quilos de cocô de cachorro, lavei tudo com sabão. Ficou um brinco!

Com a satisfação do dever cumprido, volto à sala, pego o controle, ligo a TV e quando começo a me inclinar no item que dá o mote a esse texto, ela desce com minha filha no colo e solta: “Êita sofazão bão, heim?!?”…

Vou instalar uma rede na sala…

Coisas que irritam um velho rabugento II

12 de março de 2009

Toalha molhada

            É horroroso sair do banho e notar que sua toalha está encharcada. Meu filho faz isso direto. Toma banho em meu banheiro, usa minha toalha e a deixa para que o besta do pai tenha que sair resmungando procurando toalha seca.

Encontrar o rolo de papel higiênico vazio

            Encontrei-me várias vezes nessa situação. Tanto que agora, antes de começar a atividade, me certifico se há papel em quantidade razoável.

            E o bacana é que tem gente que deixa um pedacinho grudado ao tubo, só para dizer que não trocou porquê ainda havia papel. Francamente.

            Há uma estória de um grande amigo meu que, ao utilizar o banheiro de um posto de gasolina em caráter de extrema urgência, deparou-se com a falta de papel. Não havendo alternativa, utilizou um macacão de frentista que lá estava pendurado. O dono do mesmo deve ter adorado a surpresa.

Garrafa d’água com um tiquinho da mesma na geladeira

            Que satisfação suprema, quando acordamos de madrugada, depois daquele churrasco alagado em cerveja, em encontrar aquele pote de água gelada, que chega até a doer o esôfago, enquanto tomamos em goladas, babando de prazer.

            Pois é. Daí vem o (a) espertinho (a), para não ter o trabalho de encher a garrafa, deixa só um fiozinho no fundo, como quem diz: não acabou ainda, não tem porque encher. É uma frustração sem tamanho ver aquela garrafa quase vazia. A gente toma aquele golinho e volta a dormir. Fazer o que. Com certeza quem faz isso pertence à mesma laia dos que deixam o pedacinho de papel no rolo, de alguns parágrafos acima.

Calçado jogado no quarto

            Caraca. De repente dá a sede do item acima. Voce levanta ainda grogue, tateando no escuro. Quando de súbito algo se interpõe entre seu pé e o solo, a torção é inevitável. Há um calçado largado no chão por algum (a) inconseqüente. É dor em conjunto com raiva e vontade de jogar a porcaria do calçado pela janela. Isso se voce não cair, encontrando alguma quina doida prá gerar um hematoma.

 Vestiário de academia

            Deus me livre e guarde! A gente aguenta porque não tem outro jeito. Todo velho rabugento que se preze deve se preocupar em cuidar da carcaça e da mente doentia. A academia de ginástica (ou apenas academia, para os íntimos), é um bom lugar para isso.

            O ambiente é bacana, com pessoas preocupadas com a saúde e a forma física. Energia positiva por todos os lados.

            A coisa muda quando chegamos ao vestiário.

            É um cenário assustador: homens nus e disformes se acotovelando, um calor infernal, sem contar o cheiro de jaula (quem é do interior e tem por volta dos quarenta, deve se lembrar quando vinha o circo dos irmãos Roskof e seus leões magros e famintos. O dono do circo pagava pelos gatos que a gente levava, a fim de fazer parte da dieta dos gatos maiores. Ficávamos bem próximos à jaula. O cheiro é indescritível). A coisa piora quando dá na telha de algum animal de têta completamente desprovido de noção, usar o vaso sanitário para depositar a rabada com angu da janta. Aí realmente a casa cai. Tô pelado, tentando me vestir sem esbarrar em ninguém, com dificuldade para respirar por causa do animal se decompondo no vaso sanitário e suando em bicas, mesmo depois de tomar banho. Ninguém realmente merece!!!

Felicidade?

18 de fevereiro de 2009

O objetivo primordial do ser humano é ser feliz. Não estou falando de felicidade plena, com pessoas se abraçando exibindo lindos sorrisos, como se a vida fosse um comercial de margarina. Falo dos pequenos pontos de felicidade, que contrapõem com a loucura dos nossos dias. Falo de dar um bem-humorado bom dia para alguém e receber em troca um sorriso sincero. Dar a passagem no trânsito e recebem um aceno de agradecimento. Abraçar seu filho, filha, esposo, esposa, mãe, pai, irmão, irmã, namorado, namorada, amigo, amiga. Ter a satisfação de um trabalho bem feito, ou mesmo de ter encontrado a melhor solução para um problema inesperado. Ter todas as noites a consciência de que fez o bem, sem olhar a quem. Assim, ponto a ponto, seremos felizes.

Cada um tem o Zé Capeta que merece

3 de fevereiro de 2009

Uma das grandes preocupações que se tem quanto se é moleque é a de não servir de sparing para o valentão do bairro. Sim, porque todo bairro que se preze, tem que ter ao menos um valentão. O cara é, via de regra, mais forte e ignorante do que a maioria dos outros moleques, implantando uma rotina de terror e apreensão na redondeza.

Falo bairro, porque venho do interior, e lá as turmas se dividiam por bairros. Hoje em dia, há os edifícios, condomínios e etc. Mas a regra do valentão continua valendo. Sempre há um. Não tem jeito.

Lá em Presidente Juscelino, sub-distrito de Mesquita, Baixada Fluminense, RJ, havia vários. Sim, fomos sortudos, havia vários. O Zé Capeta, os irmãos Mildon e Baiano, Giovane e Valtencir, Renan e Meio-Quilo. Voce pode estar pensando: -como um valentão pode se chamar Meio-Quilo!?!? Sim, caro e paciente leitor dessas mal traçadas linhas, o Meio-Quilo era o pior deles. Naquela época, a violência não era tão escancarada e covarde como é hoje em dia, mas existia. Havia traficantes e chefes de quadrilha. O Meio-Quilo era franzino, desnutrido e doente, não aguentava um tapa. Porém se dizia bem relacionado com os comandantes da área. Ninguém tinha coragem de por à prova a afirmação, e assim o filé de borboleta azucrinava a molecada, enterrando a cabeça de uns em montes de areia, tomando pipas e bolas de gude de outros e por aí vai.  Morreu alvejado na esquina da padaria do Vavá.

O Zé Capeta era o mais divertido dos valentões. Não judiava de todos indiscriminadamente, e eu sou prova disso. O cara gostava de mim e me respeitava. Na verdade ele se divertia batendo em quem gostava de bater nos menores. Era o valentão que aterrorizava os valentões. O pai era da reserva da Marinha, dando a ele um padrão de vida acima da maioria. Andava pelo bairro em uma bike toda mexida e de vez em quando pagava pão com mortadela e Coca-Cola para toda a molecada. Entrou para a Marinha e sossegou o facho.

Os irmãos Mildon e Baiano eram dois caras muito fortes. Se a gente desse mole com pipa, bola de gude…hum… já era. Tomavam mesmo e considerávamos sorte se ainda não sobrassem uns cascudos. A última notícia deles que tive era que trabalhavam como borracheiros em Mesquita.

O Renan tocava violão e jogava bola bem. Com ele nunca tive problemas. Tocávamos na esquina do bar do “seu” Alberto e mandávamos bem nas peladas no campinho. Mas vi o cara dando muita porrada em “Zé Arruela” que deu mole. Dava até pena. Entrou para os fuzileiros. Nunca mais tive notícias.   

Os irmãos Giovane e Valtencir eram diferentes. Enquanto o Giovane só batia em quem merecia, o Valtencir arrepiava quando dava vontade. Mudaram de bairro e nunca mais tive notícia.

Agora, depois de mais de trinta anos, percebo que aprendi com eles. Aprendi a sobreviver sem ser subserviente, aprendi a enfrentar as adversidades com criatividade, sem prejuízo à honra. Pude notar que, conhecendo e entendendo os motivos que fazem as pessoas agirem do modo que agem, dando a entender que não queremos competir e sim compartilhar, podemos conviver em paz.

Meu filho passa por uma situação dessas aqui no prédio. Volta e meia chega revoltado, dizendo que o fulano fez isso, que fez aquilo. Digo a ele para agir com inteligência, para se afastar quando necessário e não demonstrar medo e sim indiferença. E aguardar, porque todo valentão, mais cedo ou mais tarde, encontra seu Zé Capeta.

 

 

 

Coisas que irritam um velho rabugento I

22 de janeiro de 2009

Ir ao supermercado.

Tenho um amigo que adora ir ao supermercado. Diverte-se. Curte mesmo. Não digo que não me divirta, já que há o estímulo de levar o sustento à residência, de ser agraciado com a possibilidade de freqüentar um supermercado e poder comprar alguma coisa. Porém o que incomoda é a sequência de tira e põe. Vamos lá:

Põe o carro no estacionamento, tira o carrinho do monte de carrinhos, tira o produto da gôndola, põe o produto no carrinho, tira o produto do carrinho, põe o produto na esteira do caixa, tira o produto da esteira do caixa, põe no saquinho (agora há sacolas de pano para evitar o uso dos saquinhos de plástico. E quem se lembra de levá-las?), põe os saquinhos no carrinho, tira os saquinhos do carrinho, põe os saquinhos no porta-malas, tira o carrinho do prédio do cadeado, tira os saquinhos do porta-malas, põe os saquinhos no carrinho do prédio, tira os saquinhos do carrinho do prédio, põe os saquinhos no chão da cozinha, põe o carrinho do prédio no cadeado, tira os produtos dos saquinhos, põe os produtos em armários, gavetas, geladeira, freezer… ufa!!!

Tá bom, eu sei que há lojas que entregam em casa. Mas assim, onde fica a diversão?

 

Aniversário na empresa.

 

Odeio meu aniversário. Não sei exatamente o porquê. A verdade é que odeio.

Na empresa onde trabalho há a prática de enfeitar a baia da vítima e cumprimentar no dia do aniversário. A vítima, por sua vez, deve ter um carregamento de bombons, doces e congêneres para servir aos visitantes.

Há pessoas que quase nem olham para você o ano inteiro, e, por ocasião do aniversário, se sentem obrigadas a dar aquele abraço. Nem é preciso dizer que fica uma situação no mímimo constrangedora. Sem falar na, também não sei porquê, vontade que bate nas pessoas de conversar. Conversar sobre o quê?!? E por quê conversar, já que temos um monte de coisas para fazer? Cumprimenta, pega o bombom e some, oras bolas!

E para mim, que já adoro o negócio, ainda tem um agravante. Há um rapaz no mesmo setor, trabalhando bem próximo a mim, que tem 987 anos de empresa e conhece praticamente todo mundo! Resultado: todo mundo vem cumprimentar o moço, e, como as mesas ficam próximas e enfeitadas, cismam de me cumprimentar também! São quilos de bombons e centenas de apertos de mão e sorrisos amarelos.

Esse ano tiro férias em novembro.

 

 

 

 

 

Tanque ou tonel?

16 de janeiro de 2009

Vendo meus amigos, sem exceção, na faixa dos 45, 50 anos ostentando suas proeminentes protuberâncias abdominais, e sentindo em mim algo crescendo, que não o desejado, porém crescendo, tendo a refletir: por que se dá tanta importância à barriga masculina? Provavelmente o segundo grande fantasma que ronda as matilhas de velhos lobos pelo mundo afora. O primeiro, desnecessário citar.

A barriga no homem pode ser comparada à celulite na mulher. Ninguém quer, mas quase todo mundo tem. É uma instituição. É, por assim dizer, um argumento sólido para encerrar a discussão. Ele: - Você precisa cuidar da alimentação, já tem uma “celulitezinha” aparecendo. No que ela retruca: - É!?!? E você com esse barrigão de cerveja!?!?! Papo encerrado.

Dizem os especialistas que não é saudável ter a circunferência abdominal acima de 90 cm. Tremei, 98% dos homens! E o negócio é sério. Não se brinca com a saúde, ainda mais depois dos 40.

É lógico que existem as exceções, caras que se cuidam, que tem alimentação equilibrada, sem álcool e carne vermelha, que praticam exercícios físicos regularmente, que visitam anualmente cardiologista, nutricionista, endocrinologista, proctologista e, com mais freqüência, esteticista. É preciso muita disciplina para manter uma vida saudável. E ainda há os preconceituosos que dizem que tudo o que foi dito nesse parágrafo não é coisa de macho. Fazer o que?

Já ouvi frases que abrandam o lado negativo da adiposidade na linha da cintura, sim, porque não é só a barriga, há também as “cartucheiras”, ou “pneus”, que ajudam a compor o kit. “Do que adianta a barriga ser um tanque se a torneira é pequena?”. “Homem que é homem, tem que ter barriguinha (atenção para o diminutivo). Além de ser um apoio macio para o cafuné, também demonstra que o cara se cuida, porém sem exagero.” Pelo que consta, o padrão Beckham não é tão popular o quanto parece.  

  Ainda há pouco, falei da “barriga de cerveja”. Pois é, a cerveja, essa injustiçada! Culpa-se única e tão somente tão prazeroso líquido pela pança dos pançudos. Na hora da crítica, ninguém se lembra do que, em geral, acompanha a loira gelada. Vem linguiça com maionese e pão, vem pastel de tudo o que é jeito, vem carne picada com cebola, maionese e pão também, vem queijo à milanesa, vem bolinhos para todos os gostos. Profusão de gordura e fritura! E a culpa do aumento do “panceps” fica com a coitada da loirinha! Injustiça!

Há quem diga que não se deve seguir padrões de beleza e estética impostos pela sociedade. O importante é se sentir bem e ser feliz do jeito que se é. Sim, concordo inteiramente com isso.

Porém é muito importante também olhar para baixo e ver, ao menos, a ponta dos pés. 

 

Não deixe para agora o que já poderia ter feito

9 de janeiro de 2009

O tempo não passa, nós é que passamos por ele. Li uma vez em um livro de Richard Bach, que a vida é como as marcas que a água do mar faz na areia submersa. Imagine-se em voo rasante à beira mar, em uma praia de águas límpidas. Você verá sulcos que vão apontando ora para a esquerda, ora para a direita. Se acompanhar um dos sulcos, o verá dividindo-se em dois e assim sucessivamente, infinitamente.

Bach diz que podemos entender as escolhas que fazemos na vida como os sulcos na areia. Uma vez escolhido o caminho, não há volta, não adianta querer mudar de rota ou mesmo ficar pensando em como seria se tivesse tomado a outra direção.

Passando-se pelo tempo percebe-se que o arrependimento é perda de tempo, que procurar culpados pelas escolhas é inóquo, visto que os mesmos não existem.

Somos os únicos responsáveis pelo que acontece ou deixa de acontecer.

Sergio Britto diz em Epitáfio que deveria ter amado mais, chorado mais, arriscado mais. Queria ter aceitado as pessoas como elas são. Pois é, mas não o fez! E se não fizemos, foi porque não quisemos, ou não pudemos. Não adianta ficar olhando para trás, senão a gente tropeça e cai.

Se o que passou nos serve de lição para que não se repitam erros, tudo bem. O que não se pode fazer é avaliar o que passou, ter nova percepção (sempre teremos uma nova percepção a cada vez que avaliarmos uma situação. Não depende da situação, e sim de como estamos no momento) e se martirizar por não ter agido assim ou assado. O que foi feito foi feito da maneira que foi feito, porque era exatamente assim que deveria ter sido feito, e ponto!

Que pareça piegas, lugar comum. Abrace, beije, brigue, dê passagem, ligue, negue, ame, chore, arrisque, faça um favor, uma gentileza, resolva aquele mal entendido do qual você nem se lembra direito, fale aquelas verdades para seu chefe, fale aquelas verdades para aquele que trabalha com você, sorria, elogie, seja sincero, mesmo que machuque.

 

 

 

“Não tenha pressa, mas não perca tempo”.

                                                        Jose Saramago.

Capítulo Cinco: Daqui não saio, daqui ninguém me tira!

5 de janeiro de 2009

A senhora com ar severo era a síndica do prédio e vinha com um séquito de senhoras que caberiam sem tirar nem por em uma novela de Dias Gomes.

“Já falamos várias vezes para o para o Dr. Maluf que não queríamos repúblicas aqui!” disse a Margareth Thatcher da Bela Vista. Nós ficamos com as vassouras e rodos na mão, em silêncio por longos três segundos.

“Nós não somos uma república”, por final falei. “Somos profissionais da área de processamento de dados do Banco Itaú, e estamos em São Paulo para um curso”.

Percebi um misto de surpresa e incredulidade naquele pequeno comitê contemporâneo da inquisição.  Deliberaram por alguns instantes e a síndica nos intimou a comparecer ao seu apartamento no mesmo dia à noite para uma conversa.

De banho tomado e roupas de missa, comparecemos ao apartamento da magna mandatária do condomínio que seria nosso endereço por anos inesquecíveis.

Ela nos recebeu de maneira cordial, juntamente com seu marido. Explicou a razão da batida policial horas mais cedo. Realmente tiveram muito trabalho com repúblicas, tanto masculinas quanto femininas. Verdadeiros banzés, com sexo, bebidas e moradores importunados.

Contamos cada um sua história, de onde viemos, como fomos parar lá e o que pretendíamos para o futuro. Fomos convincentes e nos foi permitido morar ali, sob aviso de que seríamos severamente advertidos caso houvesse algum deslize.

Algum tempo depois, percebemos que outra proprietária havia montado também uma república em seu apartamento, abrigando várias “promotoras de eventos”. Basta dizer que as repúblicas se deram muito bem.

O Carlos Roberto, que já havia morado em república nos tempos da faculdade, trouxe a televisão preto e branco e o fogão. A geladeira compramos em loja de usados. Era uma Brastemp da década de 70, com pingüim e tudo. Dormimos por um bom tempo em colchonetes doados pelos companheiros de curso até comprarmos camas em loja de móveis usados e a estante de pinus da sala compramos na Móveis Taurus.

Certa tarde, estávamos voltando para o apartamento quando avistamos duas poltronas de vinil marrom com estofado estampado em vermelho e amarelo, no meio da calçada, para serem recolhidas pela Comlurb. Em dois tempos as poltronas estavam na nossa sala.

Já no segundo dia reparamos algo estranho. Todos nós estávamos com coceira, alguns com irritação alérgica. Descoberta: as poltronas estavam infestadas de pulgas! E consequentemente nosso apartamento também! Caraca! Toca jogar aquelas colônias pulguíferas fora e encher tudo de inseticida. Foram dias de luta contra aqueles monstros sugadores de sangue.

Com o tempo fomos fazendo mais crediários na G. Aronson e Móveis Taurus, mobiliando a sala e adquirindo TV em cores e som três em um.

As contas eram administradas pelo esquema de ”caixinha”, trazido pelo Carlos Roberto, que consistia em crédito para quem fazia supermercado ou pagava alguma conta e débito dividido entre os demais. Assim, quem ficava “negativo”, corria e pagava alguma coisa, a fim de não ficar devedor. Com isso, nunca tivemos problema com a administração das contas.

Conhecemos o bar da Haideè. Descendente de alemães, gente boa prá caramba, onde enchíamos a cara sistematicamente. O Carlos Roberto, portador de fígado mais forte, carregava um por um de volta ao apartamento, havendo invariavelmente quem não conseguisse chegar ao banheiro para devolver a cerveja, fazendo um rastro pelo apartamento.

Vivemos muitas estórias, mas muitas mesmo. Algumas não poderei contar, por respeito ao sigilo entre machos. Porém há outras, pitorescas, que posso dividir com o resto do mundo.

Contarei oportunamente.

Para quem queria ficar em Sampa por três anos, juntar dinheiro, comprar uma Yamaha RD350 e voltar para Nova Iguaçu, e já está há vinte e um anos nessa cidade louca, intrigante e irresistível, tem sido uma experiência sem par.

 

 

 

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