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Voltar...
Voltar a fazer alguma coisa, voltar a proceder de determinada maneira...
Há a vontade de voltar...mas por quê então paramos? Por quê alteramos o proceder e a maneira de pensar, se para que haja a necessidade de volta, não era o que realmente queríamos?
Quero voltar a ocupar esse espaço...mas sinceramente não sei o que se passa, já que não consigo...
Hei de voltar...
No segundo dia de curso, fomos todos de mala e cuia para o banco. Na pior das hipóteses, havia vários sofás no mezzanino do prédio e chuveiros no vestiário, lá no último andar.
Sinceramente não tenho a menor idéia de qual seria a reação das pessoas ao descobrirem vários jovens sem teto dormindo nos sofás do mezzanino.
O dia transcorreu normalmente, mas a estranha sensação de desamparo era uma constante. Ao final da última aula, as pessoas indo embora e a gente sem ter para onde ir. Ficamos conversando com uma pessoa iluminada, que atende pelo nome de Ricardo Nishiama. O jovem descendente de japoneses morava em uma quitinete em Pinheiros. Por essas coisas da vida, foi com ele que conversei do lado de fora da estação do metrô D. Pedro II, perdido, procurando no mapa o endereço da escola na qual faria a prova que me traria ao maravilhoso mundo do processamento de dados na maior cidade da América Latina. Ele estava perdido também.
Bom, voltando à noite do segundo dia, o Ricardo chamou a mim e ao Jânio para ficar em seu lar, até que achássemos um lugar para ficar. O Carlos Roberto ficou em casa de parentes, assim como o Gilberto Issao. O Augusto Flávio ficou nos aposentos de uma igreja, que tinha o padre amigo de sua mãe. O Marcelo foi abrigado pela Helena, também freqüentadora do curso. Depois de dois dias, ele juntou-se a nós na quitinete.
Com o Nishi conhecemos Kitaro (new age bacana), o espaguete com legumes e nós moscada e o chá digestivo. Aprendemos também que há pessoas que são completamente desprovidas de preconceitos e sentimentos mesquinhos e simplesmente ajudam os outros. Sem esperar nada em troca, sem nada cobrar. Apenas ajudam e pronto.
Saíamos os seis todos os fins de semana procurando apartamento para alugar. Era cada “cabeça de porco” que ficava cada vez mais difícil manter o ânimo.
Vinte e dois dias de procura. Se não achássemos logo um lugar para ficar, o sonho de vida nova e prosperidade dissiparia-se. Resolvemos visitar a Avenida Paulista. Como não tínhamos certeza se ficaríamos em Sampa, pelo menos poderíamos contar que conhecemos a artéria pulsante do capitalismo sul-americano.
Andamos, andamos e... andamos. Não que o passeio estivesse chato, mas já era hora de procurar um ônibus e voltar para a quiti do Nishi. Descendo pela rua que ladeia o Masp, chegamos a um lugar conhecido por mim. Descendo mais um pouco, chegamos à Avenida 9 de Julho e logo em frente estava a praça 14 Bis. Qual não foi minha surpresa ao constatar que estávamos em frente ao prédio no qual passei a primeira noite!
Comentava com os outros retirantes a curiosa situação quando um senhor, de seus sessenta e poucos anos, magro e com cara de boa gente, interrompeu sua conversa com o porteiro para nos perguntar se estávamos procurando apartamento para alugar. Com a resposta positiva, nos informou que era proprietário de um apartamento no décimo terceiro andar do edifício e estava para alugar.
“Querem dar uma olhada?” Perguntou-nos o Dr. Emílio Maluf, advogado, proprietário do apartamento no qual viveríamos por quatro anos e gente boa.
O apartamento era antigo, por isso grande e o melhor: bem conservado. Havia três bons quartos, sala grande, cozinha e área de serviço. Sim, esse era o lugar!
O Jânio, o mais articulado do grupo, logo tratou de combinar com o Dr. Emílio as condições, quando poderíamos ocupar o imóvel e demais trâmites.
“Só tem um problema”, disse o nosso futuro senhorio com o semblante preocupado, nos fazendo gelar o estômago. Estava tudo muito bom para ser verdade. “O pessoal do edifício não aceita repúblicas. Já tiveram muitos problemas”.
“Mas não somos estudantes irresponsáveis”, retrucamos imediatamente. “Somos profissionais da área de processamento de dados iniciando um curso. Ficaremos o dia inteiro fora e nos finais de semana viajaremos para nossas cidades. Não causaremos problemas”.
O Dr. Emílio gostou da gente e resolveu “comprar a briga” com os moradores e alugar o apartamento para um grupo de rapazes.
No sábado seguinte, música, sabão, vassoura, cerveja, rodo, água e vibração. Rolava solta a faxina no cafofo quando a campainha soou. Ué, quem seria? Abro a porta e me deparo com um grupo de cinco senhoras, com ar severo.
“O que está acontecendo aqui!?!?!” disse a que com certeza era a líder das senhoras responsáveis pela moral e os bons costumes do prédio.
Continua...
Chovia a cântaros e o frio continuava judiando na manhã seguinte à minha chegada à cidade locomotiva desse país. Eu precisava chegar ao Centro Técnico Operacional do Banco Itaú e não sabia nem chegar ao elevador do prédio onde passei a noite.
Informei-me com o porteiro que, muito solícito tentou me ajudar, mas a coisa complicou depois da quarta indicação. Eu já não sabia se ia para a esquerda, para a direita ou se parava e chorava.
E chovia, mas chovia muito. Na verdade, nunca vi tanta chuva na minha vida. As boas vindas do clima de Sampa a mais um retirante!
Consegui chegar a meu destino, mas como não poderia deixar de ser, cheguei do outro lado da avenida (com o rio Tamanduateí separando as duas vias) e duas quadras distante da passarela.
Nesse ínterim, meus companheiros de curso já se apresentavam e davam por falta do carioca. Onde estaria o jovem sarado, calor que provoca arrepio, dragão tatuado no braço, calção corpo aberto no espaço?
Eis que adentra ao recinto um jovem esquelético, completamente encharcado, braço quebrado, cara ralada, semblante constrangido pelo atraso perguntando: “é aqui o curso de programação?”.
Os rostos pasmos, incrédulos, ou as duas coisas, me fitaram por intermináveis cinco ou seis segundos. Rapidamente encontrei um lugar para sentar, torcendo para que o constrangimento passasse logo.
Naquela babel de sotaques, comecei o trabalho de identificação das pessoas que falavam de maneira diferente da minha e não emitissem um “meu” a cada duas palavras, a fim de juntar uma turma de retirantes e montar república.
No primeiro intervalo, no banheiro, ouvi algo que confundi com gauchês, no que prontamente fui corrigido: “gaúcho não! Catarinense!” e tive a informação de que, a exemplo de cariocas e paulistas, havia uma rixa folclórica e histórica entre gaúchos e catarinenses. Pronto, o Jânio, filho de Florianópolis, foi o primeiro contato.
Ali mesmo, no banheiro, Juntaram-se a nós o Marcelo de Juiz de Fora, o Augusto Flávio de Brasília, o Homero de Recife e o Carlos Roberto de Bauru. Com a desistência do Homero, um dia depois, veio a nós o Gilberto Issao de Londrina.
Éramos seis, enfim.
Continua...
Branco, a cor da paz!
Branco, lateral daquela seleção feia de 94.
Branco, a cor do lençol depois de lavado com OMO Nova Fórmula.
Branco, a cor do cabelo da Vovó.
Branco, a cor da casa que já foi a mais poderosa do mundo.
Branco, a cor do cavalo de Napoleão.
Branco!!! Deu branco de novo!!!!
De volta à minha casa, uma pergunta de minha mãe me fez pensar: onde e como você vai ficar lá? Pois é, não havia pensado nisso. O salário de auxiliar de serviços auxiliares não me garantiria grande coisa. Liguei para um amigo que havia se interessado por minha guerreira CG125 amarela. Ele não tinha o dinheiro todo. Propus doze suaves prestações. Ele topou. Pronto, mais um caraminguá para complementar a mixaria que era meu ordenado.
Agora faltava o “onde”. Meu pai se lembrou de um de seus fregueses (ele é carpinteiro, lembra-se?) que estava em São Paulo a trabalho. Ligou para ele. Ok, a primeira noite eu poderia ficar no apartamento que ele dividia com mais três (mais um rapaz que estava lá de favor) na primeira noite. Depois seria por minha conta.
Pois bem, contato feito, arrumei várias mochilas, contei para os amigos e fiquei contando as horas para rumar à vida nova.
No domingo, 15 de junho de 1987, à noite, lá estava eu na rodoviária Novo Rio, com meus pais, irmãos e um punhado de amigos. O amigo de meu pai iria de ônibus leito e me encontraria na rodoviária do Tietê.
Minha mãe não agüentou o tranco e se afastou para chorar. Meus amigos tocavam violão e cantavam me desejando boa sorte. Era tanto abraço que levei bronca do motorista, que queria seguir viagem e o galã de fotonovela não parava de se despedir.
Pela janela do ônibus olhava os rostos que me fitavam com um misto de tristeza e alegria. Minha cabeça zunia e o coração apertado socava no peito. Não tinha mais volta. Será que vai dar certo?
A viagem foi longa, não preguei os olhos. Cheguei a Sampa e fui recepcionado por um frio de cinco graus. Excelente começo! Encontrei o bem-feitor que me deixaria ficar por um dia em seu apartamento, entramos no superlotado Metropolitano e rumamos à Praça 14 bis, perto da Escola de Samba Vai-Vai e do Bexiga. Samba e Tarantela. Isso parecia interessante!